Especialista alerta que rupturas emocionais e mudanças de ciclo exigem acolhimento, escuta e tempo — e que recomeçar com saúde vai além de força e resiliência
Fim de relacionamentos, demissões, mudanças bruscas na vida profissional, filhos que saem de casa, mudanças de cidade, ou até a transição para uma nova fase da vida, como a menopausa. Para muitas mulheres, essas experiências representam mais do que eventos pontuais: são verdadeiros abalos estruturais — emocionais, sociais e identitários.
“Cada término carrega em si um luto, ainda que simbólico. E todo recomeço exige energia, coragem e tempo de maturação. Mas o mundo cobra pressa”, afirma a Dra. Jaqueline da Mata, médica com pós-graduação em psiquiatria e foco em saúde mental da mulher. Segundo a especialista, a forma como uma mulher atravessa esses ciclos tem impactos diretos na autoestima, na autoconfiança e na estabilidade emocional. “A pressão para ser resiliente, produtiva e forte o tempo todo pode gerar um estado constante de exaustão emocional.”
O problema é que, culturalmente, o sofrimento feminino ainda é muitas vezes silenciado ou romantizado. “A mulher que termina um relacionamento é vista como ‘livre e pronta para a próxima’. A pessoa que perde o emprego é incentivada a empreender no dia seguinte. Pouco se fala do luto, da insegurança, da solidão ou do medo que vêm juntos com essas rupturas”, reforça a médica.
Por outro lado, Jaqueline acredita que esses momentos também podem se tornar oportunidades de autoconhecimento e fortalecimento pessoal — desde que haja espaço para acolher a dor e respeitar o tempo de cada uma. “O recomeço não precisa ser grandioso. Às vezes, ele começa em gestos pequenos: pedir ajuda, mudar uma rotina, olhar para si com mais compaixão.”
A especialista destaca três pilares fundamentais para viver essas fases de forma mais saudável:
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Nomear as emoções: reconhecer tristeza, raiva, frustração ou alívio é o primeiro passo para elaborar o que está sendo vivido, sem julgamento.
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Buscar apoio profissional: psicoterapia, grupos terapêuticos e espaços de escuta acolhedora fazem diferença na travessia de momentos difíceis.
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Fortalecer redes de apoio: amigas, familiares, colegas e outras mulheres que já passaram por situações semelhantes podem oferecer acolhimento real — longe dos conselhos prontos e do “vai passar” automático.
Jaqueline ainda lembra que cuidar da saúde mental nesses momentos é também um ato de resistência. “A sociedade espera que a mulher dê conta de tudo com leveza. Mas a leveza só chega quando há verdade. E verdade se constrói com escuta, tempo e respeito pelo próprio processo.”
Mais do que se reinventar, ela defende que é preciso se permitir recomeçar com humanidade — entendendo que há força também na vulnerabilidade. “É no atravessar consciente que o recomeço se fortalece.”
Fonte: Dra. Jaqueline da Mata – médica com foco na saúde mental da mulher e pós-graduada em psiquiatria.